Mercado aquecido, trabalhador esquecido
Gérson Marques

Professor da UFC e doutor em Direito


Agosto de 2009

Pátios vazios. Faltam carros para atender à demanda. Um cenário completamente diferente do final de 2008, quando as montadoras de automóveis ameaçaram despedir em massa sob o pretexto da crise financeira. As dificuldades catastróficas - rangeram - teriam de ser compartilhadas com os trabalhadores, mediante despedidas, redução salarial e suspensão de contratos.

O Governo interveio, com o dinheiro do contribuinte, em cuja categoria também se encaixa o próprio empregado. A isenção do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI), que já ultrapassa um bilhão de reais a menos na arrecadação federal, deu resultados empresariais satisfatórios. O consumidor correu às empresas.

Milhares de carros foram vendidos, complicando ainda mais o trânsito das cidades e aumentando a poluição ambiental. É assim que o mercado vê solidariedade social. Com a extensão dos benefícios tributários aos eletrodomésticos e outros bens de consumo, estima-se que a injeção indireta de dinheiro público chegue a três bilhões de reais. Um rombo que haverá de ser reposto nos próximos anos, por mim e por você, leitor.

O mercado está aquecido. Que bom! É um momento de bonança. Contudo, o trabalhador ficou alijado dos loiros obtidos às custas do dinheiro público. Continua relegado, excluído dos lucros da indústria automobilística, contentando-se com a manutenção no emprego, o qual reverte em favor das próprias empresas, em forma de prestação de serviço, mão-de-obra já experiente, que favorece o empregador. E o mesmo Governo, tão ágil no socorro às empresas, adormece sem nenhuma ingerência que beneficie o empregado. Restaram a este migalhas e discursos do terror econômico.

Lembrei-me da violência aos fins sociais do Estado, porque se socializam os prejuízos empresariais e se privatizam os lucros. Afinal, não se deve, ao menos, socializar os dois? Deixo ao leitor a reflexão e confio aos sindicatos o juízo de conveniência de se mobilizarem, organizadamente.


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