PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 7ª REGIÃO

 

A ÁGUA, O FOGO E A VERGONHA

Francisco Gérson Marques de Lima
Doutor, Procurador Regional do Trabalho,
Professor da UFC e da Faculdade Christus

 

Lembro-me que, quando eu era criança, meu pai contava uma estória envolvendo o fogo, a água e a vergonha. Não sei de quem era, de fato, a autoria. Mas sei que já caíra na sabedoria popular e no domínio público. Era mais ou menos assim:

Á Água, o Fogo e a Vergonha eram três amigos inseparáveis. Contudo, para melhor conhecer o mundo, resolveram se dividir e, depois, trocarem experiências. Mas, como se acharem novamente, uma vez que o mundo é enorme? Foi aí que o Fogo sugeriu:

- Estarei em todos os lugares. Na floresta, procurem-me nos gravetos secos e me encontrarão em forma de fagulha. Nas cidades, estarei nos isqueiros das pessoas, nas lareiras das casas, nos fogões dos restaurantes. Será fácil me encontrarem.

- De minha parte — falou a Água — estarei nos mares, nas torneiras, no subsolo (é só cavar um pouquinho o chão e, alguns centímetros ou metros abaixo, me encontrarão), nas caixas d’água, nos tanques, nos garrafões de água mineral, nas lavanderias. Deste modo, a exemplo do Fogo, poderão me encontrar no mundo todo, em qualquer lugar.

Como a Vergonha silenciara, o Fogo indagou:

- E tu, oh Vergonha, depois de nos separarmos, como podemos reencontrá-la?

- Ah, caros amigos — respondeu ela, tristemente — lamento, mas, se me perderem, nunca mais me encontrarão...

A vergonha é uma virtude cara. Enquanto o homem pecador pode se redimir, o criminoso se ressocializar e o impuro se purificar, o desavergonhado não volta, jamais, a encontrar a vergonha perdida. E em todos os setores existem os desavergonhados, os quais não se confundem com os desinibidos. Enquanto estes não sentem temor em se apresentarem a outras pessoas ou ao público, por não serem tímidos nem acanhados, aqueles não possuem a menor cerimônia em mentir, em atuar dissimuladamente, em ser cínico ou descarado, postando-se contra regras morais, contra a ética.

Quando uma nação perde a vergonha, com o seu povo se tornando cinicamente aético ou anti-ético, e os governantes deixando de primar pela atuação sincera, transparente e compromissada, então se tem um estopim que explode na corrupção, na criminalidade, no desgoverno, na má repartição de receitas, no apadrinhamento nepótico ou na perseguição a pessoas.

Então, vamos nos precaver contra os desavergonhados, especialmente em época de eleição para membros do Legislativo e do Executivo. Aqueles que perderam a vergonha, nunca mais a encontrarão. Quem roubou, continuará roubando; quem enganou, continuará enganando... e assim sucessivamente.

Francisco Gérson Marques de Lima é procurador regional do Trabalho

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