PROCURADORIA REGIONAL DO TRABALHO DA 7ª REGIÃO

 

A JUSTIÇA E O AMOR

Francisco Gérson Marques de Lima
Doutor, Procurador Regional do Trabalho,
Professor da UFC e da Faculdade Christus

Duas grandes virtudes, o amor e a justiça, que inspiram os homens e lhes determinam o destino. A Justiça sempre foi tida como a virtude sublime, por reunir todas as demais; era este o pensamento de Sócrates, o filósofo grego. Com o cristianismo, o amor (em algumas traduções da Bíblia, a caridade) passou a ser a mais importante das virtudes, sendo logo sucedida pela justiça.

Mas a principal discussão que se coloca é se estas duas virtudes podem conviver entre si, no dia-a-dia mundano, do homem comum. O amor humano, com suas paixões; não o amor divino, que é perfeito.
Neste contexto, imaginei um diálogo entre as duas virtudes:

Passeavam o Amor e a Justiça por um bosque, florido e lindo como as duas próprias virtudes. O Amor, então, com o seu natural instinto de solidariedade e companheirismo iniciou:

- Minha estimada amiga, que tal se trabalhássemos juntos? Vê bem: somos, ambos, virtudes maravilhosas, tão amadas pelos homens e tão necessárias a eles; somos responsáveis pela vida em sociedade; respondemos pela humanização dos seres; temos imenso carinho pelas coisas de Deus e nos instalamos no coração do homem. Em cada gesto que fazemos, deixamos escrito no ar a preocupação com o outro. Formaríamos, portanto, uma ótima dupla, complementando-nos.

- Prezado amigo, que bom vê-lo tão docilmente assim, como só tu sabes sê-lo. Seria uma grande satisfação trabalharmos juntos. E eu sairia ganhando ao teu lado, por tua indiscutível nobreza. Contudo, suponho que a proposta não seja muito boa, porque embora tenhamos muito em comum é verdade, também, que nossas funções nos distanciam consideravelmente, em razão das exigências do mundo e de seus habitantes. Uma nuvem de dúvida abate a alegria de tê-lo ao meu lado. Por exemplo, perante a prática de um crime, tu condenarias o criminoso ou o perdoarias? Não te deixarias levar pelo sentimento de perdão? Sim, pois o amor sempre perdoa. Será que o criminoso, ao alegar as dificuldades de sua infância, a difícil vida da família, levando-o ao submundo, não te faria absolvê-lo? É que o amor é compreensão. Será que admitirias tolerar a separação e o divórcio dos casais? Ser-te-ia difícil, pois amor é união. Se te deparasses com uma ação de cobrança, condenarias o devedor a pagar obrigatoriamente ao rico credor? Lembro-te que o amor se compadece com os mais necessitados. Se tuas decisões não fossem cumpridas, levantarias a espada que empunho? Afinal, o amor é brando, é pacífico, não? E se estivesse em litígio algum querido teu, ousarias condená-lo? É que o amor é parcial, é sentimento, é irracional. Quando há racionalidade, frieza, não há amor; quem sabe, uma paixão efêmera, esta tua irmã que não responde por teus atos. Tens certeza de que não te envolverias no caso em julgamento e que manterias tua imparcialidade? Isto importa, porque o amor é solidário, envolvente e tende a comungar das dores do próximo, atraindo-as para si. Ousarias decretar a prescrição ou a caducidade no processo? Sim, pois o amor não conhece os limites do tempo, em sua imortalidade divina. Em meio a tantas dúvidas, creio que nossa parceria não sobreviveria, por não estares apto a cumprir o difícil ofício de aplicar justiça, de modo imparcial, sereno, hirto, altivo.

- Caríssima Justiça: que belas observações teceste. Por isto és, de fato, a virtude sublime. Tuas indagações me trouxeram dúvidas, e onde há dúvidas não pode haver amor. Ele (digo, eu) logo sucumbe. Igualmente, é sabido que a justiça não pode ser aplicada nas incertezas: ela precisa ser firme nas suas decisões. Na verdade, há dimensões muito maiores do amor, que não mencionaste. Eu sou louco, não conheço limites. Por conseguinte, não me adaptaria às regras de justiça, como, de fato, não as sirvo. Sou como o tufão, que arrasta tudo no caminho. Nem sempre sou calmo. Edifico na calmaria e destruo nas minhas erupções, irrompendo do peito dos amantes. E quando venho, nenhuma racionalidade resiste a mim, nem me explica nem me suporta. Não há como me compreender, pois o amor não se explica: ele simplesmente é, simplesmente vive. Eu não conseguiria explicar racionalmente minhas decisões. Nas minhas erupções, poderia ser injusto, porque é de minha natureza o descontrole emocional. Quando me apresento com limitações, sujeito-me a novas descobertas, pois não sobrevivo por muito tempo. E ai daquele que não souber amar: não o perdoarei jamais. Atiçarei o tempo para que o arrependimento consuma a sua alma mesmo após a morte; que o fogo gele seu estômago e o frio queime seu peito. Este delito, o de não saber amar, puni-lo-ei descomedidamente, e não recearei em destruir a alma do infeliz, que carregará consigo uma chaga eterna. À tua semelhança, oh Justiça, também não conheço o medo. Quem ama, desafia o perigo e não teme a morte. Tem sido este o segredo dos grandes amantes: destemidos, alucinados, sem preconceitos, sem limites; mas amantes plenos, que se respeitam e se zelam mutuamente. De fato, oh Justiça, eu poderia perdoar indevidamente, e punir severamente, contrariando tuas regras. Nossas regras, se é que eu as tenha, são diferentes: as tuas são fundadas na ordem, na segurança, na sabedoria, na força; as minhas não se preocupam com a ordem, com a segurança do povo; tuas ações vêm do cérebro; as minhas, do coração; tu pensas, eu ajo. Tu existes para os outros, em função de toda a sociedade; eu vivo para os amantes e eles devem viver para si. E a sabedoria normalmente passa-me ao largo. Dedico-me aos amantes, ao amor fraternal e a outros tipos de amores. Há várias justiças também? Por vezes, manifesto-me egoísta, por querer os amantes só para mim e inspirar neles este mesmo desejo. E isto é inservível para ti. A seu turno, agora acredito piamente que também tu não conseguirias desempenhar os ofícios do Amor, tão racional que és e cheia de regras, de limitações, de neutralidade. Aproxima-te, com freqüência, da Política; eu a desprezo completamente. Tens, portanto, inteira razão em achar que não devemos trabalhar juntos, o que não impede de nos ajudarmos, sempre que possível.

- Excelente. Temia que não alcançasses minhas palavras. É natural que se tema o Amor. Tu podes machucar, quando queres. E quando o fazes, tua dor é insuportável, dilacera a carne, singra o peito, sangra as entranhas, não encontra lenimento. Só o tempo apazigua a ferida, que nunca cicatrizará, porém. Minha espada também dilacera, mas vem de fora para dentro; a tua é invisível e ataca logo o coração, irrompendo impiedosamente. O homem não sabe qual dor é maior. Particularmente, jamais quererei sentir a ardência que causas. A Justiça não suportaria a dor do Amor: seria aniquilada. Que bom ter-te como amigo.
- Ah, ilustre Justiça! Não sabes o quanto, reciprocamente, receio tua espada, tão afiada e intrépida. Se ela me tocar, cairei em desespero, despedaçado. Se eu estiver errado, tua imparcialidade me castigará severamente. És muito cara aos homens e aos deuses. Prefiro fazer como tenho me comportado: evitando-te, sem discutir tuas regras para não desafiar tua ira. Os amantes que resolverem discutir a justiça do amor já perderam: serão feridos mortalmente por ti ou por mim. Por um de nós eles serão estraçalhados. Continuemos, então, bons amigos, sem sermos sócios.

Felizes e compreensivos, continuaram a caminhada a Justiça e o Amor, conversando amenidades, renovando a amizade e selando o pacto de respeito mútuo.

A justiça e o amor são as duas grandes virtudes que não podem se afastar, nunca, do convívio humano. Não dá para se estabelecer hierarquia entre elas, as quais cuidam de valores essenciais aos homens. É inconcebível que alguém viva desprovido de amor ou de justiça. A ausência de qualquer uma delas deixa um vazio tão grande que engole o homem, num processo autofágico.

Que o homem não ponha o amor contra a justiça, nem desafie a justiça com o amor. Quem perecerá será o homem. A virtude permanecerá, porque qualquer uma das duas é imortal. A única solução é procurar não colocá-las frente a frente, pois ambas são terríveis; o homem não pode com elas: deve render-se. Ele é insignificante para o gigantismo e a força do Amor e da Justiça. É melhor viver estas virtudes cada uma a seu tempo, modo e lugar, sem provocar os desafios; que não fique o homem no meio delas, pois sairá estraçalhado, como o frágil crustáceo entre o rochedo e o mar.

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