Assessoria de Comunicação Social

Clipping de 09/Fev/2009 Pág. 01
Editoria: REGIONAL  

Trabalhadores preocupados com uso de agrotóxico
Casos de morte e doença levantam suspeita sobre impactos
na saúde do manejo dos defensivos agrícolas

Melquíades Júnior – Colaborador

Limoeiro do Norte. Com mortes de trabalhadores rurais com sintomas parecidos, ocorridas no fim do ano passado, e, atualmente, dezenas deles com relatos de doenças supostamente causadas por agrotóxicos com que trabalham, aumenta a preocupação de médicos e familiares com a possibilidade de contaminação por agrotóxicos nas lavouras da Chapada do Apodi, em Limoeiro do Norte. Fraqueza no corpo, tontura, dor de cabeça, coágulos de sangue no vômito e mudança no tom da pele são alguns dos relatos de quem trabalha na aplicação dos defensivos agrícolas e na colheita de abacaxi.

Uma equipe de 20 médicos voluntários está fazendo consultas e exames nos trabalhadores. A Agência Brasileira de Inteligência (Abin) e a Secretaria Especial dos Direitos Humanos acompanham a polêmica da contaminação por agrotóxicos na região jaguaribana.

O agricultor Vanderley Matos da Silva, 31 anos, trabalhava numa empresa multinacional exportadora de frutas em Limoeiro. Sua função era fazer o coquetel de venenos aplicados na plantação. São vários produtos químicos, com princípios ativos que livram as frutas de pragas na lavoura. E dão garantia de colheita ao produtor.

Em julho do ano passado, Vanderley começou a sentir fortes dores de cabeça, falta de apetite e insônia. A pele tinha aspecto amarelado, e em pouco tempo perdeu mais de dez quilos. Em agosto, com a suspeita de hepatite, passou por vários médicos em Limoeiro; enquanto isso, reclamava de fraqueza e, em algumas das vezes em que comia, vomitava, apresentando coágulos de sangue.

Após exames que não acusaram qualquer anormalidade em seu fígado, Vanderley teve resposta diferente em Fortaleza, onde exames comprovaram a necessidade urgente de transplante desse órgão.

Ausência de autópsia

Hospitalizado à espera de solução, o agricultor morreu no trigésimo dia de internação, em novembro passado. Deixou mulher e filho, que sustentava com o que ganhava na Del Monte Fresh Produce Brasil, onde trabalhou por três anos e sete meses. O relato acima foi dado pela esposa e pela irmã de Vanderley à reportagem e em denúncia ao Ministério Público do Trabalho de Limoeiro do Norte. Contudo, até mesmo pela inexistência de autópsia, não é possível comprovar se há relação de causa-conseqüência entre o quadro de saúde do trabalhador e sua atividade na empresa.

A morte de Vanderley foi a segunda de um agricultor que trabalhava na aplicação de veneno entre outubro e dezembro de 2008. Antes, falecera José Valderi Rodrigues, acometido por uma infecção, supostamente causada por bactérias presentes nos venenos que manipulou. Os dois eram moradores no bairro Cidade Alta, o mais populoso de Limoeiro e um dos que mais fornecem mão-de-obra para as empresas da Chapada do Apodi.

Colegas de Vanderley estão preocupados com a saúde. Têm apresentado sinais parecidos com os do agricultor falecido. “Uns colegas dele têm vindo aqui saber dos sintomas, porque trabalham com os venenos e estão apresentando os mesmos sintomas”, afirma a viúva Jarlene Matos.

Saúde debilitada

É o caso de “José” (nome fictício), que pediu para não ser identificado porque trabalha em empresa da chapada e teme represálias. Trabalhando há mais de dois anos perto da área de aplicação de veneno, José tem reclamado, nos últimos meses, de tonturas, fraqueza no corpo, falta de apetite e pele amarelada.

No mesmo bairro, um agricultor de 28 anos, que trabalha na mesma empresa em que José, apresenta doença na pele. As células do tecido epitelial estão ficando degeneradas. A família toda está preocupada, como a de “Francisco dos Santos”, da Cidade Alta, que passou apenas cinco meses trabalhando na colheita de abacaxi e precisou pedir licença médica após freqüentes dores de cabeça e registrar pouca mobilidade de uma das pernas.

Com o agravamento da situação, cerca de 20 médicos do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Ceará (UFC), nos dias 31 de janeiro e 1º de fevereiro, realizaram consultas em 40 trabalhadores que atuam na Chapada do Apodi e estão preocupados com o próprio estado de saúde, suspeitando que a causa das doenças tenha sido o contato com os venenos.

Para o médico Antonio Lino, que atuou no município de Quixeré, que divide com Limoeiro o território cearense da Chapada do Apodi, embora não haja dados conclusivos sobre a relação agrotóxicos-doenças, uma série de fatos, que vão da localização do trabalho, da função exercida, dos equipamentos usados pelos trabalhadores aos sintomas “parecidos”, geram suspeita suficiente para se investigar o caso.

SAIBA MAIS

Câncer

Limoeiro do Norte tem um dos maiores índices de câncer do Interior do Ceará. Foram 190 casos registrados nos últimos sete anos. Médicos realizam estudos para verificar se há relação entre os casos e o uso de venenos por produtores. Em 11 cidades do Baixo Jaguaribe, agricultor e dona-de-casa são os mais acometidos por tumores malignos. Os principais casos verificados são de pele, cólo de útero, mama e próstata.

Perímetro - O Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi, em Limoeiro, é um dos mais importantes do Nordeste, gera mais de 15 mil empregos diretos e produz mais de R$ 60 milhões todos os anos.

Mais informações:
Departamento de Saúde Comunitária da UFC (85) 3366.8044
Del Monte Fresh Produce (85) 4006.1900

 

SEGURANÇA GARANTIDA
Empresa nega qualquer contaminação

Limoeiro do Norte. A empresa Del Monte Fresh Produce, que atua na Chapada do Apodi e foi citada pelos trabalhadores à reportagem, se disse surpresa com as denúncias, garantindo que não há registro de problemas causados por agrotóxicos em seus funcionários e que o sistema de equipamentos de proteção usado é referência nacional.

Conforme o gerente jurídico e diretor de Assuntos Institucionais da Del Monte, Newton Assunção, não procedem as afirmações de que a empresa estaria contaminando seus trabalhadores com agrotóxicos. Por telefone, ele disse que “não houve ninguém doente por causa da empresa. Recebemos fiscalização freqüente do Ministério do Trabalho. Temos menos de 5% de ações trabalhistas e nenhuma está relacionada com acidente de trabalho. É um dado histórico, poucas empresas podem apresentar um projeto desse”, afirmou.

A Del Monte é a maior produtora de abacaxi e melão do Ceará, com forte impacto na empregabilidade rural e no valor das exportações no Estado. São aproximadamente 4.500 empregados diretos. No ano passado, a empresa produziu cerca de U 30 milhões em frutas no Estado. “A Del Monte está de portas abertas. O nosso almoxarifado é moderno, uma referência para o Nordeste, não falta Equipamento de Proteção Individual para nenhum trabalhador”, afirmou o gerente, para quem as críticas são de movimentos locais que querem pressionar a empresa.

Aberta a visitas - “Costumo dizer que não afirmamos que não existe intoxicação na região, informamos que não existe na Delmonte. Não podemos nos responsabilizar por outras empresas. As equipes que estão fazendo pesquisa podem nos visitar, recebemos com todo prazer”, concluiu.

A problemática dos agrotóxicos na Chapada do Apodi tem envolvido pequenos e grandes produtores. Além do uso dos produtos químicos por grandes empresas, uma das ressalvas feitas pelos profissionais de saúde é a facilidade com que são comprados os produtos por pequenos produtores, muitos dos quais são poucos “visados” pelas fiscalizações.

 

REPERCUSSÃO
Entidades discutem problema na região

Limoeiro do Norte. Desde os primeiros casos de doenças até este momento, nada é conclusivo sobre a suposta relação entre agrotóxicos-doenças-mortes de trabalhadores rurais. A pesquisa que analisa os impactos dos agrotóxicos na Chapada do Apodi, liderada pela professora universitária Raquel Rigotto, teve início em 2006 e pode perdurar por todo este ano, pelo caráter detalhista do levantamento, que vai da informação sobre os produtos usados na lavoura à autópsia verbal, ouvindo os relatos das famílias de parentes mortos.

A reclamação de produtores e trabalhadores rurais com agrotóxicos é intensa há pelo menos três anos, conforme denúncias publicadas pelo Diário do Nordeste desde 2006. As matérias têm servido de subsídio para outros órgãos entrarem na discussão. Em novembro passado, a Agencia Brasileira de Inteligência (Abin) ouviu pessoas “estratégicas” dos vários lados da questão para saber o que pode estar acontecendo em Limoeiro. Os trabalhadores também foram entrevistados por representantes da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, do Governo Federal.

Fórum permanente

Um fórum permanente, criado desde o último seminário para discutir o problema em Limoeiro do Norte, acompanha a problemática. Participam UFC, Uece, Cáritas Diocesana, Diocese Católica de Limoeiro, ONG Conlutas, Via Campesina, 10ª Célula Regional de Saúde e Ministério Público. Em abril de 2008, os deputados estaduais Antônio Granja e Cirilo Pimenta, então presidentes das comissões de Saúde e Meio Ambiente, respectivamente, da Assembléia Legislativa do Ceará, asseguraram a realização de audiência pública para discutir o problema. Quase um ano depois, o tema ainda não foi objeto de discussão na Casa.


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