Assessoria de Comunicação Social

Clipping de 06/Jan/2009 Pág. 04
Editoria: FORTALEZA

"Bicos" de policiais
“Tudo que eu fiz foi para ajudar minha família”
Acusado de ser intermediador da contratação de PMs para fazer bicos nega a relação de contratante, mas afirma prestar serviço por fora para garantir o sustento da casa

Luiz Henrique Campos - da Redação

Na modesta casa situada em um bairro da periferia de Fortaleza, uma mulher aparentando entre 20 e 30 anos recebe O POVO com uma criança nos braços. Simpática, pede para que entremos. O marido, que havia marcado o encontro para às 15 horas daquele dia, teve que ausentar-se por alguns instantes, mas ela garante que ele não irá demorar. Ali mora o subtenente A, da Polícia Militar. O policial é apontado como sendo o intermediador da contratação de PMs para os bicos em uma empresa de bebida, condenada a pagar indenização a três PMs que lhe prestavam serviço de segurança. O caso foi mostrado ontem no O POVO.

A mulher que recebe os jornalistas é esposa de A. Nos seus braços, a filha de dois meses que nasceu prematura. Enquanto o subtenente não chega, a filha mais velha, de cinco anos, é responsável pelas honras da casa. Fala do pai policial, da irmã mais nova, do ano na escola. A mãe aproveita a descontração da filha e conta que A. teve que sair às pressas de casa porque a mãe teve um problema de pressão.

A. chega cerca de 30 minutos depois. Pede desculpas, fala da mãe e dos filhos. Já sabia que o assunto da entrevista seria “bicos” na PM. Não nega que faça o trabalho extra. “Preciso de dinheiro para sustentar a casa e dar o melhor para minhas filhas”. Nega, porém, que seja intermediador da contratação de outros PMs. Mas segundo a direção da empresa de bebidas, em audiência na Justiça do Trabalho, receberia R$ 7.600,00 mês para fazer isso.

O subtenente diz que recebia R$ 1 mil por mês e não sabe de onde surgiu a informação de que contrataria os demais PMs. Durante a conversa, faz questão de mostrar a sua ficha na PM, onde não consta nenhuma reprimenda. Ao contrário, são dois elogios. Antes mesmo da conversa, O POVO obteve a informação de superiores do militar de que ele seria um dos policiais mais esforçados na função que exerce.

A. afirma que ficou sabendo da situação da indenização aos PMs e por isso decidiu afastar-se dos “bicos”. “Mas não sei o que vou fazer agora para sustentar as minhas duas filhas”, declara. A esposa, que estava próximo, não resiste à afirmação e começa a chorar. O subtenente procura acalmá-la. “Tudo que eu fiz foi para ajudar minha família. E agora me vejo tratado como sendo um bandido”, confidencia.

Na saída da casa, o subtenente diz ao repórter que tem certeza que será prejudicado com a publicação da matéria. “Mas não posso lhe pedir para não publicá-la. Essa é a sua profissão. Faça o que o senhor achar que seja correto”, despede-se sem alterar o tom de tranqüilidade que pautou a conversa desde o início.


Associação orienta bicos fora da área de segurança

Vice-presidente da Associação dos Cabos e Soldados da Polícia Militar do Ceará (ACSCE), o soldado Flávio Sabino diz que a entidade reconhece a existência de atividade extra praticada pelos policiais militares e afirma ser comum esse tipo de conduta. Para ele, que renega a expressão “bico”, isso aconte e porque o policial ganha pouco e não teria como oferecer uma vida condigna a seus familiares se não procurasse outros serviços para complementar a renda.

A realização de atividades extras seria tão comum na categoria que a própria ACSCE, ao ser procurada por PMs para tratar sobre o assunto, prefere orientar que se os militares não puderem evitar, que procurem serviços fora da área de segurança privada. Ele cita, por exemplo, atividades nas áreas de comércio, educação, saúde. Flávio Sabino ressalta ainda que em regra, os policiais que exercem atividades fora da corporação são considerados de boa conduta na PM. E só agiram assim por pura necessidade.

O POVO - A Associação tinha conhecimento de alguma ação judicial cobrando indenização por atividades extras realizadas por PMs?

Flávio Sabino - Sim, informalmente, nada oficial.

OP - É comum a realização desse tipo de atividade por PMs?

Flávio - Sim. É comum policiais militares exercerem uma atividade paralela à atividade policial militar. Isso se dá em razão dos baixos salários da categoria, razão pelo qual muitos policiais optam por uma atividade extra para aumentar sua renda mensal e poderem dar uma condição de vida melhor a sua família. Muito embora constitua uma transgressão disciplinar, é o meio mais lícito de um cidadão dar uma condição de vida melhor a sua família é através do trabalho.

OP - Que orientação vocês têm dado aos PMs que procuram a entidade tratando sobre o problema das atividades extras?

Flávio - Hoje, orientamos a procurarem meios dentro da própria corporação. Orientamos ainda a não praticarem segurança privada. E que, em caso de necessidade de uma atividade extra, que procurem outras áreas, como ser comerciante, professor, instrutor de auto-escola, enfermagem, área da saúde etc.

OP - Há muitos PMs respondendo por esse tipo de transgressão disciplinar na Corregedoria dos Órgãos de Segurança Pública?

Flávio - Não temos dados quanto a processos na Corregedoria sobre este assunto.

OP - O exercício da atividade extra não prejudicaria a função militar?

Flávio - Toda regra tem exceção. Contudo, na maioria do casos, estas atividades são benéficas tanto para a sociedade como para instituição, bem como para a família do militar. Pois ao exercerem uma outra atividade diferente da policial, os PMs se aproximam mais da sociedade. A farda por si só ajusta o homem na sociedade. Muitas vezes, os cidadãos passam a conhecer melhor o policial quando estes estão trabalhando em outra atividade e comentam que são policiais. Em relação à instituição, são estes homens que não chegam atrasados, não faltam serviços, não saem antes do término de seus turnos. São, geralmente, profissionais exemplares, pois precisam de suas folgas para trabalhar e dar uma vida digna a suas famílias. É evidente que, em muito dos casos, estes homens estão cansados. Para a família são homens dedicados, bons chefes de família, bons pais, ótimos maridos. Pois além de não se darem ao uso de bebidas, dedicam o pouco tempo de folga que lhe resta ao convívio em família. Deixamos claro que não fazemos apologia ao serviço extra à atividade policial militar; fazemos apologia, sim, ao bom salário que atenda às condições básicas e necessárias para que o homem tenha e possa dar uma vida digna a sua família. Entretanto, se o Estado não lhe dá um salário digno, melhor é trabalhar do que ter uma conduta desvirtuada. Não se escuta falar de agente da Polícia Federal com atividade extra PF, não se escuta falar de patrulheiro da PRF com atividade extra. Recebem salários dignos. Quem é o profissional que deixaria o aconchego do seu lar, o convívio com sua esposa e filhos, em suas horas de folgas, para trabalhar em outro emprego se não for por necessidade? E a necessidade é causada pelo próprio Estado, que paga mal, que não valoriza o homem, que não investe no homem e que esquece o homem.

Policiais militares já morreram em serviços paralelos

Nos últimos dois anos, três policiais militares perderam a vida praticando serviços paralelos na área de segurança. No dia 30 de julho de 2007, os soldados Francisco de Assis do Nascimento, o De Assis, e Francisco Honorato de Castro, ambos de 37 anos, chegaram no início da tarde à agência do Banco do Brasil na Parangaba com um malote contendo a importância de R$ 70 mil, em um veículo Pálio pertencente ao segundo militar. Segundo testemunhas e a Polícia, quando os PMs iriam subir os degraus da agência, três homens os abordaram com vários disparos de metralhadora e pistolas .40 e 380, essa última de uso exclusivo das Forças Armadas.

Além dos militares, uma dona-de-casa foi morta por bala perdida, e um outro homem, que deixava a agência logo após a dona-de-casa, foi ferido com um tiro na coxa. De acordo ainda com a Polícia, os soldados (ambos à paisana) estariam realizando um trabalho particular para uma empresa de transporte de valores. Além do malote, os assaltantes levaram a arma do soldado Honorato, um revólver 38, cromado. Os dois soldados eram lotados no Frotinha da Parangaba.

A ação dos assaltantes no BB em Parangaba foi semelhante à ocorrida no dia 8 de maio de 2006 na calçada do Shopping Del Paseo, no cruzamento da rua Barbosa de Freitas com a avenida Santos Dumont, na Aldeota. Por volta de 13 horas, quando o policial militar Francisco Josafá Rocha, 32, chegou ao local em uma moto e com uma mochila de cor preta, que, aparentemente, continha dinheiro, ele foi abordado por dois homens que atiraram e fugiram levando a mochila da vítima. O soldado costumava chegar ao local fardado, no mesmo horário, levando malotes com valores para depositar em uma agência bancária no centro comercial.


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